domingo, 19 de abril de 2009

Deixar a onda levar.


"Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês"



Ultimamente eu ando meio arrependido de algumas coisas. Da minha consciência política,
das minhas exigências, de pensar demais em algumas coisas. Mas eu não consigo deixar de
fazer essas coisas, não consigo deixar de ser a areia da engrenagem para me tornar um grão de sal no mar de gente.


"Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
"


Personalidade é uma coisa estranha, tu vai achando legal no começo, começa a se sentir diferente, percebe que os teus gostos são diferentes dos da maioria, até fica meio arrogante, passa a não entender como essas pessoas “comuns” conseguem levar essas vidinhas de merda. Começa a criticar ditadura, democracia e aristocracia, e acha todas elas erradas, tão erradas quanto você mesmo.


"Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa"



Aí então começam as crises. Teus ídolos se revelam humanos, e isso te decepciona, mas aprende a aceitar. Não há mais sentido em ver televisão, a mídia é corrupta, a arte está prostituída, as músicas não são mais feitas para exprimir alguma coisa, elas existem pra seguir tendências e vender, e aí então você começa a odiar o capitalismo, vira fan de bandas underground que distribuem suas canções pela internet, para então virar-lhes as costas assim que tocarem na rádio.


"Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco



E ai tu começa a duvidar de Deus, que tu sempre aprendeu que te criou, vigiou e essas coisas todas. Depois de ter entendido “tudo” sobre Darwin e Nietzche não faz sentido nenhum acreditar em Deus, afinal a Igreja queimou tanta gente graças a essa existência.


"É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está constribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social
"


Mas aí você pensa um pouco, e percebe que esse seu estilo alternativo está longe de ser único, ele pode não ser a moda da mídia, mas no fim das contas ele é uma moda. No fim das contas, talvez você não, mas boa parte dos fanzinhos dessas bandas underground que você escuta não entendem nada da música, estão ali para ser alternativos, o que não deixar de ser um modismo da anti-moda. Começa a ver que a sua visão religiosa, ou anti-religiosa também não é 100% correta, percebe que os políticos não são pessoas totalmente ruins, assim como os seus antigos ídolos não eram, e no fim das contas todos são humanos como você, e essa é a única coisa absoluta. E aí começa o relativismo, tu senta em cima do muro e para pra pensar, e percebe que as tuas idéias não são absolutas, que a sua honestidade, e nem a de ninguém, é absoluta, que a sua visão de mundo é limitada, e que bem e mal, certo e errado, e a maior parte dos opostos, estão todos longe de serem absolutos.


"Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar"



Opostos não são absolutos, chegando nesse ponto você pode voltar a ouvir algumas músicas das rádios (nem todas são ruins, mas a maioria realmente não vale um tiro, mas não é tocar na rádio que as faz ruins). Toda aquela carga “alternativa” que te oprimia não existe mais, e você pode gostar do que realmente gostar, gostar sinceramente. As coisas começam a andar bem, você se sente livre, e cada coisa nova é excitante, cada possibilidade nova merece ser avaliada e parece que nada mais te limita. Porém nem essa sensação é absoluta e você acaba descobrindo que tudo isso tem um preço.


Chega uma hora que a vida dá uma volta tão grosseira quanto os versos que você odeia nessas músicas fúteis. Aí você tão acostumado a pensar começa a pensar demais, começa a pensar em possibilidades para melhores, porquês e porquês sem fim, tua paz vira tumulto, tua tolerância é pisoteada e você deseja que a onda te leve.
Deseja ser normal, está cansado de pensar. Pra que pensar se é mais fácil só reagir a tudo (frase da música Noites de outros dias -7, cidadão quem). Dá uma puta vontade de votar no partido da maioria (que muda a cada eleição), não dá mais vontade de ler, não da mais vontade de fazer nada, parece que você já tem muitas coisas na cabeça, mais do que é capaz de gerênciar, e fica de saco cheio de todo o resto.
Mas pelo menos pra mim a música nunca deixou de ser uma coisa sincera, uma luz amena no cinza pesado do céu, e talvez por ela eu não vá me tornar uma pessoa normal.

Mas a verdade, é que trilhar seu próprio caminho tem um preço:

Não há volta.

Mas pensando bem não quero trocar minha personalidade por ouro de tolo, felicidade vazia, e outras afirmações que minha arrogância (que vai bem, obrigado) me permitem fazer.


E agora lembrando de tudo isso, não me sinto tão arrependido assim.



*Trechos destacados da música Ouro de Tolo (Raul Seixas)

3 comentários:

Jenifer disse...

Eu ainda estou com a música do outro título (YOKO) na cabeça.
Mas já disse, é exatamente assim que eu me sinto
"Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco"
E quer saber,o resto, que se foda, eu não quero voltar atrás e espero que todos os outros morram dentro dessa mediocridade coletiva.

Beijos

gabriela disse...

Gostei :)
mesmo que não eu tenha consiguido te interpretar direito..
xorameliga ;*

Jaqueline disse...

nem toda arte é vendida! até Nietzsche crê que ela é a única forma de transformar o caos mundano em beleza, e olha que ele era bastante niilista! ^^
a existência da mediocridade só depende de nós! enquanto continuarmos a achar, por exemplo, "Pânico na TV" algo legal, estaremos sempre fadados ao fracasso cultural, à mediocridade intelectual e à falta de alternativas.
bjos, meu cronista preferido! ^^
J.